Sexta-feira a tarde e estou no restaurante e café do MuBE, em São Paulo.

Me senti organizado, pois cheguei 20 minutos antes do combinado, já tinha algumas perguntas preparadas no laptop, percebi que não havia esquecido de levar a máquina fotográfica (as vezes eu esqueço) e pedi um suco de laranja enquanto esperava pelo entrevistado.

Desde que eu havia decidido escrever uma matéria sobre o assunto, entrei em várias salas de bate-papo, acessei sites especializados e liguei para agências focadas em michês, garotos de programa, scorts, acompanhantes ou GP, como também são conhecidos. Depois de quase 20 ligações e recados em caixas-postais, apenas um concordou em conversar comigo pessoalmente sabendo que se trataria de uma entrevista.

Eis a sua descrição no anúncio “Lucas é universitário, tem apenas 19 anos, barriga tanquinho, corpo perfeito e pele sem nenhuma marcas ou tatuagem. Aquariano, nascido no interior paulista, gosta de praticar musculação e fazer cooper. Ele é muito brincalhão, dança como gogo boy e está aberto a novos trabalhos também como modelo fotográfico. Para entrar em contato com ele, o telefone é (11) XXXX-XXX”. O site também apresentava várias fotos do Lucas, de corpo, rosto e tudo mais que você possa imaginar. Do outro lado da linha, ele me disse:

“Eu topo sim dar a entrevista, não me envergonho de nada. A minha vida daria um filme, inclusive, eu sou ator, me formei numa escola ali no Shopping Frei Caneca, conhece? E pode tirar fotos minhas se quiser, a minha família não fala comigo faz tempo, então, não tenho medo de nada, sou o que sou e não me envergonho disso. Eu tenho um horário livre na sexta-feira, onde a gente se encontra?“.

Pois bem, escolhi o MuBE por ser um local público tranquilo, seguro e com acesso a internet. Enquanto eu selecionava as fotos do filme Garotos de Programa, olhei no relógio e percebi que oLucas já estava atrasado. Fiquei ansioso, pedi mais um suco e o meu celular vibrou em cima da mesa com a seguinte mensagem:

- “Desculpa, vou cancelar, surgiu um cliente de última hora. Melhor você procurar outra pessoa. Abraço, me liga se precisar de alguma outra coisa. Tchau!“.

Cancelei o suco e pedi uma cerveja enquanto procurava desesperadamente por outros contatos em diferentes sites. Fiz inúmeras ligações perguntando sobre garotos de programa e quase fiquei constrangido quando percebi que uma senhora da mesa ao lado me assistia há algum tempo, como se aquilo estivesse fazendo o dia dela ser mais divertido. Do outro lado da linha, ouvia repetidos NÃO, NÃO, NÃO e até um “vai entrevistar a sua mãe, seu palhaço“. No final da segunda cerveja, alguém me retornou a ligação e uma voz grave disse:

- “Pode me chamar de Rafael! Atualmente eu também sou motorista executivo de um ex cliente. Agora estou aqui na Rua Amauri, perto da Faria Lima, esperando ele sair de uma reunião. Se você chegar rápido, a gente conversa na rua mesmo”.

Juntei as minhas coisas e entrei no primeiro táxi que passou na frente do museu. Reparei que a bateria do laptop estava acabando e na rua eu não teria onde conectar o carregador. De repente, eu já não me sentia mais tão organizado como antes. Desci do táxi e liguei novamente para o Rafael que, com uma voz calma, me disse:

- “Estou estacionado em uma rua paralela, vem andando que eu te acho. É proibido estacionar na Rua Amauri e não quero que o meu chefe lhe veja. Nada de fotos ou usar o celular enquanto estiver comigo, ok? Se eu não for com a sua cara, eu falo e você vai embora sem insistir“.

 

Neste momento o meu estômago brigava comigo, lembrei que só havia ingerido o suco e as cervejas durante todo o dia. Comecei a caminhar pela calçada e me senti estúpido quando acendi um cigarro, ficando zonzo já na primeira tragada. Do outro lado da rua, alguém usando terno e gravata me fez um sinal com a mão e atravessei sem nem mesmo olhar para os lados. Ouvi uma buzina de moto, mas segui em frente. O Rafael sorriu, apertou a minha mão e falou: “Você não tem medo de morrer, guri? A moto quase te atropelou. Vamos ali na frente do meu carro e a gente conversa, ele está aqui perto. Me empresta um cigarro?”.

Rafael era alto, forte, tinha olhos verdes e o seu terno parecia ser caro, com um corte bem ajustado. Os sapatos sociais de bico fino brilhavam tanto quanto os seus dentes excessivamente brancos. Reparei que enquanto a gente caminhava, ele foi alvo de todos os olhares femininos que passaram por nós, uma das moças (que estava em grupo, talvez por isso tenha ficado mais corajosa) chegou a falar em voz alta “Nossa, nossa… assim você me mata“. Ele pareceu nem ouvir e eu perguntei se era sempre assim. Ele disse que sim, que o assédio era grande, e demos risada quando ele falou: “O triste é ouvir um Nossa, Nossa… odeio referência sertaneja“.

Quando chegamos ao carro do seu chefe, um SUV preto blindado, eu ameacei tirar o computador de dentro da mochila, mas ele foi categórico:

- “Sem celular, sem máquina fotográfica e sem abrir o computador. Eu sei que dá pra tirar foto com a tela, eu também tenho um Mac. E não seja ingênuo, você pode ser assaltado com isso aqui na rua. Eu empresto papel e caneta e você escreve em cima do capô. Se o meu patrão chegar, eu falo que estava só dando informação e você vai embora!“.
.
.
Leia a entrevista com o Rafael aqui no blog PRA CURTIR.
As imagens usadas nesta matéria são do filme Garotos de Programa, do cineasta Gus van Sant.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s